quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Quem constrói as informações da mídia?



Precisamos de uma revolução na mídia brasileira. É impossível acreditar na neutralidade da mídia, ainda mais na sua liberdade de imprensa. Esse segmento adora reivindicar sua liberdade de imprensa para poder sensurar seus próprios funcionários. Esse não é o primeiro caso . Lembro logo do caso de Maria Rita Khel, demitida por "um delito de opinião" (palavras dela). Esta psicanalista foi demitida, após expor sua opinião acerca do "Bolsa Família", (ver http://diogotourino.blogspot.com/2010/10/dois-pesos-maria-rita-kehl-o-estado-de.html ) do Estado de São Paulo (Estadão). Quando o ex-presidente Lula afirmou que a mídia atua como partido, esse segmento se sentiu a classe mais ofendida do mundo: ofendidos pela verdade. Paro por aqui com uma pergunta para que todos reflitam: QUEM CONSTRÓI A INFORMAÇÃO QUE CHEGA A SUA CABEÇA? OS FATOS EM SI OU O QUE UMA CLASSE QUE INTERPRETA ESSES FATOS, TENDO SEUS INTERESSES COMO PONTOS FULCRAIS DESSA INTERPRETAÇÃO? TODO CUIDADO COM A MÍDIA É POUCO!

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Quem senta à mesa?


Quem senta à mesa?

Introdução
Luis da Câmara Cascudo em sua obra intitulada História da Alimentação no Brasil colocará sob a mesa um novo olhar, sociológico, acerca da culinária nacional. Muito além de uma simples resposta a fome, a alimentação, logo a culinária, está envolvida numa teia que interliga complexos sociais, políticos, econômicos, artísticos, literários, líricos, pictóricos, etc. O enfoque social supera o nutricional nessa obra.
Um dos aspectos fundamentais para uma compreensão aprofundada da alimentação está, para o autor, na relação que o mesmo faz entre o “complexo verbal” e a culinária. “O complexo verbal” é de grande importância para uma sociedade, pois através dele que se legitimam poderes econômicos, políticos e sociais. Para Ortega y Gasset, cada geração sente a necessidade de criar novos vocábulos para alojar seus entusiasmos. Na culinária podemos observar o mesmo, mas em instâncias menores, como nome de doces (beijinho, suspiro de anjo, teta de nega, olho de sogra, etc.) que estão intimamente ligados as relações amoroso-sexuais do povo brasileiro. Nessa comparação (com o “complexo verbal”), diz Cascudo, a ciência culinária perdeu a mística verbal que a ambientava. Não foi adquirida uma consciência da culinária, possuímos apenas uma consciência do estado da fome. Sendo assim, afirmamos que o complexo culinário, enquanto psicologia coletiva, continua obscuro para nossa sociedade.
Aqui se faz a ideia do título, “Quem senta à mesa?”, pois trabalharemos com todos esses complexos que envolvem o simples e ao mesmo tempo complexo hábito de alimentar.
As dimensões da culinária
A culinária faz parte da sabedoria popular. Receitas são passadas de geração em geração por linhagens familiares. Sob a forma de textos ou sabiamente decoradas. O Folclore alimentar é muito rico, estendendo-se até para os mitos: quem comer manga com leite vai passar mal. Etc. Devemos compreender tudo que envolve a culinária para percebermos suas riquezas.
Como dissemos na introdução, a culinária está presente numa trama de teias que interligam complexos sociais, econômicos, políticos, religiosos, etc., relacionando-se um a uma na vida social. A partir desse pressuposto trataremos da culinária em cada um desses complexos, resgatando seus valores simbólicos, econômicos e políticos. Primeiro trataremos dos valores econômicos e políticos da culinária, pois acreditamos ser muito importante para compreendermos o sistema no qual estamos submetidos e qual o papel da culinária na organização desse sistema, depois trataremos rapidamente dos aspectos religiosos. Nosso foco de discussão é o primeiro “complexo”.
Dentro do complexo econômico- político podemos primeiro apresentar uma tese que coloca a culinária como um elemento de distinção de classes e para isso basta direcionarmos nossos olhos para os “potlatchs” como ceias de natal, ano novo, aniversários. Se gasta muito dinheiro para celebração de um dia, festivo no calendário. Quanto maior e com mais variedade for a culinária, maior é a posição dessa pessoa na hierarquia social. E, como membro de uma classe, essas pessoas seguem esses padrões festivos para se reafirmarem como membros dessa classe, buscando cada ano aumentar o “poder” da sua ceia. Outro exemplo é como as pessoas se comportam à mesa: suas maneiras de conduzir os talheres, de alojar o guardanapo, etc. “Ou você come como um peão de obra ou se comporta a mesa”. Observa-se claramente como os alimentos estão diretamente ligados as hierarquias de classes.
Outro aspecto ligado à economia da alimentação está ligado ao tempo que destinamos a nossas refeições. Geralmente, o tempo que se leva para terminar uma refeição é de 15 minutos; tempo muito pequeno para que seu corpo possa realizar um trabalho com todos os nutrientes da comida. A partir disso devemos nos perguntar como esse tempo é determinado e logo encontramos a resposta no sistema econômico capitalista e no modelo de sociedade moderna em que vivemos; sociedade essa em que corremos o dia inteiro, com pressa, sem tempo para nada, muito menos para satisfazer as necessidades do nosso corpo, como a da alimentação. O relógio do capital é que move nossas bocas e escolhe o que comeremos. Move nossas vidas. Vivemos com pressa e morremos devagar, enquanto o barato da vida é viver devagar e morrer depressa. Não é a toa que a culinária dos E.U.A pauta-se em fast-foods (MC DONALD’S, BURGER KING’s, BOB’S, etc.), alimentos muito saturados e artificiais que esta levando mais da metade da população desse país a obesidade. Mas pra que se preocupar se com esse tipo de culinária consegue-se manter o proletário em pé na fábrica durante horas. Na Inglaterra, no período da Revolução Industrial, o açúcar era muito presente na alimentação dos operários, pois sua ingestão mantinha a classe trabalhadora (explorada) sem fome por um bom tempo e dava energia para o trabalho. A falta de tempo para se alimentar corretamente faz parte da lógica do capital: Time is Money! O empregado tem previsto em lei uma hora para se alimentar e dentro dessa hora perde 30 minutos para ir e voltar ao local onde faz a refeição, 15 minutos para fazer a refeição e 15minutos restantes para fazer a digestão. Com pouco tempo para a refeição, o trabalhador busca fazer suas refeições em restaurantes . Mas, também há aqueles que não comem em restaurante, mas acabam se entregando à culinária corrompida do capitalismo, trocando a terra pela lata . O paladar é a vítima do capitalismo. A estética do alimento substitui sua saúde. Usamos agrotóxicos, fertilizantes e várias outras drogas para criarmos alimentos gordos e coloridos, que falsamente são posto como sinônimo de riqueza proteica. Tira-se o gosto orinal do alimento, substituindo por um artificial. Bebemos suco de laranja com veneno. Mas tudo isso é importante para o mercado exportador, pois seu lucro é muito maior. Podemos, com uma analogia que Cascudo faz do homem- máquina, entender como o capitalismo organiza nossa alimentação: Assim como a máquina não escolhe o óleo, o trabalhador não escolhe o que come. “As tentativas econômica e técnicas do “prato único” nos refeitórios industriais são peças desse xadrez” (CASCUDO, p. 450).
Por fim, tem-se a culinária ligada ao complexo religioso, que implica em algumas questões como a posição dos Indianos com relação a carne de vaca. Para eles a vaca é um animal sagrado. Quem a usar em sua culinária está constrangendo diretamente os deuses. Os católicos também se abstêm da carne vermelha na Semana Santa. Contudo, a relação mística entre religião e culinária não é apenas proibitiva, como o caso da indiana, há exemplos em que o alimento era tido como sagrado para determinadas tribos e fazia parte do seu prato diário. A mandioca mesma surge d’um mito. Assim também é a carne de porco para os Cubanos. E assim se constituem outros mitos em torno dos alimentos.
Podemos adentrar em outros complexos com outros exemplos: experimente comer sem camisa. Quase 100% da população acharia isso uma falta de educação. Quem nunca ouviu um “coloca a camisa pra comer menino!”? Quem vai à alguma festa logo espera uma fartura alimentar. Festa sem comida não é festa, e ai do dono da festa se não oferecer o que comer. Cai na língua do povo. Funerais também são exemplos que apresentam uma lógica culinária singular.
Conclusão
Para Cascudo, a culinária, logo a alimentação, pode ser entendida como a base do complexo cultural de uma sociedade. É partir desse pressuposto que o autor afirma que a culinária/alimentação faz parte da cultura. É cultura; das mais primordiais que se possa imaginar. Superada talvez pelas relações de parentesco que Levi-Strauss trabalhou. Em tudo há comida no meio, ou a falta dela (vê-se o exemplo dos prisioneiros políticos de Cuba, os quais utilizam-se da greve de fome para almejar sua liberdade ou melhorias locais). Em um curso de Folclore Brasileiro o Porf. Gilberto disse que os U.S.A adoram fazer uma guerra porque não se alimentam direito. Quem se alimenta direito repousa posteriormente. A alimentação requer um descanso. Claro que foi uma ironia da parte dele. Por fim, uma das coisas que mais me intriga no que tange a alimentação é saber que na terra do Sol (América do Sul, do Sol), com toda abundância natural, há milhões de pessoas que passam fome. Enquanto na Amazônia “o peixe pula a sua boca e a manga cai em sua cabeça”, nos grandes centros urbanos pessoas reviram os lixos em busca do que comer. A conclusão que devemos tirar daí é: que alem da culinária/alimentação ser um processo social, a fome também o é. E somos nós os responsáveis por elas.
O povo é o que ele come!


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CASCUDO, Luis da Câmara. História da Alimentação no Brasil. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. Da Universidade de São Paulo, 1983.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Os negros não são os mesmos depois de Gilberto Freyre


O papel do negro na sociedade brasileira deve ser pensado sob diversos pontos históricos: o primeiro pelo o papel desempenhado por eles no regime escravocrata, da "Casa Grande & Senzala" e o segundo, no pós 1888, quando são inseridos marginalmente na vida urbana. No primeiro momento essas pessoas de cor eram estigmatizadas como escravas, e a partir desse rótulo sofriam as maiores barbaridades do regime (submetidos a várias horas de trabalho braçal forçado, sem descanso, péssima alimentação, sem nenhum direito, apenas o de chorar quando levado ao pelourinho). Em desacordo com Gilberto Freyre nesse ponto, não acredito numa relação "doce", "harmoniosa" que este observa na relação escravo- senhor(a), mesmo quando no espaço doméstico, mas não posso descordar que nossa política social para com esse povo de cor não era a mais brutal do mundo. Só no Brasil conheço casos (por meio da literatura de Aluizio de Azevedo) em que escravas vestiam longos vestidos que caracterizavam a nobreza, conforme o gosto de suas “madames”. O rigor distintivo cultural não era tão rígido. Em oposição ao Brasil temos exemplo do Apartheid Norte-americano e Sul- africano. Por se configurar de maneira singular na história, como dito acima, Gilberto Freyre optou por retratar a escravidão brasileira mais pelo seu lado doméstico, que para ele chegava a ser “doce”, “hamônico”.
Acredito ser esse um dos pontos perecíveis da obra de Freyre: não deter seu olhar sociológico para o escravo da Senzala como merecido. Contudo, não podemos esquecer o que a obra de Freyre ("Casa Grande & Senzala") tem de essencial: um reconhecimento desse povo de cor e todos os elementos culturais, sociais e políticos que herdamos deles e que estão vivos até hoje.
Contudo, a história do negro não pode ser só marcada como a história escravocrata brasileira, mesmo que essa represente 1/5 de nossa história e ainda hoje, com todo movimento abolicionista do pré 88, sofremos com efeitos deletérios daquele passado sombrio, que nada havia de “doce”. Com o fim (em tese) da escravidão, a dialética ganhou novas características, não mais acentuadas por escravos e senhores de engenho (já em crise naquele período), mas agora entre pretos e brancos. É no mesmo século XIX que teorias de cunho raciais e racistas (Oliveira Vianna em “Populações Meridionais do Brasil” in http://www.observadorpolitico.org.br/2011/07/grandes-ironias-sobre-a-questao-racial-%E2%80%93-parte-i/ e http://www.observadorpolitico.org.br/2011/07/grandes-ironias-sobre-a-questao-racial-%E2%80%93-parte-ii/) ganham forças entre intelectuais e acadêmicos de todo mundo. A miscigenação do Brasil, do contato entre os povos de cor e os brancos, era como uma cólera social. Inicia-se assim a política de “descoloração” populacional. Resumindo: o Brasil só de brancos e só para brancos.
A “liberdade” adquirida pelos negros em quase nada serviu para eles. Mudou-se apenas o sistema de dominação, atualizado pela oligarquia nacional em virtude de pressões capitalistas internacionais que pregavam que a mão de obra livre era mais barata e rendia muito mais e pressões nacionais de abolicionistas com força política. Sem trabalho, sem se alimentar, sem nenhuma dignidade, eles foram forçados a se marginalizarem, sofrendo com os imperativos do abismo social da época.
É ai que entra em cena Gilberto Freyre com todo seu amor pelo escravo, pela negra, pela mulata, resgatando tudo de melhor que já produziram e com uma lição de sociologia perene: É impossível pensarmos a história do Brasil sem conhecermos que são essas pessoas, esse povo, pilares da nossa sociedade. Tudo bem que apenas reconhecimento não basta e nesse aspecto concordo fielmente com Nancy Fraser. Há de se fazer mais por eles, focar numa política redistributiva, mas para isso é preciso ter em mente que as estruturas sociais são outras, totalmente diferentes daquelas que conhecemos do período escravocrata. Deve-se inserir assim, o negro na sociedade capitalista para que se possa buscar medidas afirmativas eficazes. Os negros não são os mesmo depois de Gilberto Freyre.
Queremos dizer com isso que não mais apenas a cor é um elemento determinante na vida social. A condição social, econômica, política e cultural, juntas assumem corpo na classe social, principal elemento que distingue pessoas. Porém, ser negro influencia muito nas formas de se relacionar na sociedade. Há omito de que negro de classe alta não sofre preconceito. Mentira! Aposto firmemente que as pessoas (no geral) estranhariam um negro dirigindo uma BMW, ou qualquer carro importado que seja. Provavelmente seria motivo de desconfiança, julgado a partir de bases preconceituosas cristalizadas em nossa vida social. O mito da ascensão social é quebrado quando apontamos que há uma distancia real entre brancos da classe A e negros da mesma classe. Uma pergunta que devemos deixar para que possa incitar a discussão é: porque a maioria das pessoas pobres é negra? Acreditar em meritocracia seria reforçar ainda mais a tese racial já vencida academicamente.
Sendo assim, o aspecto “cor”, que em muito é tratado por acadêmicos geneticistas deve ganhar maior destaque na trama social, pois é nela que faz “Neguinho da Beija Flor” ser chamado de “Neguinho” e não de “Europeuzinho da Beija Flor” (uma vez que um estudo apontou que 70% do tipo genético do ilustre sambista é de origem Europeia).
Gilberto Freyre nos lançou uma missão a qual não devemos abandonar, mas lutar com unhas e dentes: não apaguem da história aqueles que a fizeram, seja em qual período for. Assim a literatura fez por muitos anos. Falta a ciência. Os negros não são os mesmo depois de Gilberto Freyre. Não conseguimos pensar o povo brasileiro sem essa cor.