Em São Paulo, tempos ásperos. Leio: uma residência particular é assaltada a cada hora, o roubo de carros multiplica-se nos estacionamentos dos shopping centers. Entre parênteses, recantos deslumbrantes, alguns são os mais imponentes e ricos do mundo. Que se curva. Um jornalão, na prática samaritana do serviço aos leitores, fornece um receituário destinado a abrandar o risco. Reforce as fechaduras, instale um sistema de alarme etc. etc.
Em vão esperemos por algo mais, a reflexão séria de algum órgão midiático, ou de um solitário editorialista, colunista, articulista, a respeito das enésimas provas da inexorável progressão da criminalidade. Diga-se que uma análise honesta não exige esforço desumano, muito pelo contrário.
Enquanto as metrópoles nacionais figuram entre as mais violentas do mundo, acima de 50 mil brasileiros são assassinados anualmente, e um relatório divulgado esta semana pelas Nações Unidas coloca o Brasil em quarto lugar na classificação dos mais desiguais da América Latina, precedido por Guatemala, Honduras e Colômbia. O documento informa que 28% da população brasileira mora em favelas, sem contar quem vive nos inúmeros grotões do País.
Vale acrescentar que mais de 60% do nosso território não é alcançado pelo saneamento básico. Ou sublinhar a precariedade da saúde pública e do nosso ensino em geral. Dispomos de uma cornucópia maligna de dados terrificantes. Em contrapartida, capitais brasileiros refugiados em paraísos fiscais somam uma extravasante importância que coloca os graúdos nativos em quarto lugar entre os maiores evasores globais.
É do conhecimento até do mundo mineral que o desequilíbrio social é o maior problema do País. Dele decorrem os demais. Entrave fatal para o exercício de um capitalismo razoavelmente saudável. E evitemos tocar na tecla do desenvolvimento democrático. Mas quantos não se conformam? Não serão, decerto, os ricos em bilhões, e a turma dos aspirantes, cada vez mais ostensivos na exibição de seu poder de compra e de seu mau gosto. Não serão os profissionais da política, sempre que não soe a hora da retórica. Não será a mídia, concentrada no ataque a tudo que se faça em odor de PT, ou em nome da igualdade e da justiça.
Nada de espantos, o Brasil ainda vive a dicotomia casa-grande–senzala. CartaCapital e especificamente o acima assinado queixam-se com frequência do silêncio da mídia diante de situações escusas, de denúncias bem fundamentadas, de provas irrefutáveis de mazelas sem conta. Penso no assunto, para chegar à conclusão de que há algo pior. Bem pior. Trata-se da insensibilidade diante da desgraça, da miséria, do atraso. Da traição cometida contra o País que alguns canalhas chamam de pátria.
Exemplo recentíssimo. Há quem lamente os resultados relativamente medíocres dos atletas brasileiros nas Olimpíadas de Londres. Parece-me, porém, que ninguém se perguntou por que um povo tão miscigenado, a contar nas competições esportivas inclusive com a potência e a flexibilidade da fibra longa da raça negra, não consegue os mesmos resultados alcançados em primeiro lugar pelos Estados Unidos. Ou pela Jamaica. Responder a este por que é tão simples quanto a tudo o mais. O Brasil não é o que merece ser, e está muito longe de ser, por causa de tanto descaso, de tanto egoísmo, de tanta ferocidade. De tanta incompetência dos senhores da casa-grande. Carregamos a infelicidade da maioria como a bola de ferro atada aos pés do convicto.
Mesmo o remediado não se incomoda se um mercado persa se estabelece em cada esquina. Basta erguer os vidros do carro e travar as portas. Outros nem precisam disso, sua carruagem relampejante é blindada. Ou dispõem de helicóptero. Impávidos, levantam seus prédios como torres de castelos medievais e das alturas contemplam impassíveis os casebres dos servos da gleba espalhados abaixo. A dita classe média acostumou-se com os panoramas da miséria, com a inestimável contribuição da mídia e das suas invenções, omissões, mentiras. E silêncios.
Às vezes me ocorre a possibilidade, condescendente, de que a insensibilidade seja o fruto carnudo da burrice.
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
domingo, 20 de maio de 2012
Em busca do céu na terra
Ontem, dia 19 de maio, assistindo a final da Liga dos Campeões me ocorreu de ser levado a varanda de meu apartamento por um surto histérico de ordem transcendental. Era a "marcha para Jesus". Em muito me intrigou aquela caminhada; comecei a me perguntar por que o movimento estudantil em Juiz de Fora não toma proporções desta caminhada, por que a marcha da maconha também não, ou qualquer outra manifestação política. Mas logo desanimei de procurar tais respostas, pois não passava de comparações românticas que me vieram pelo fato.
Hoje pela tarde, trocando pernas pelo centro parei numa banca e vi que eram cerca de 50 mil pessoas em tal movimento. Confesso que ,me assustei. Assustei pelo número de pessoas que tal "bandeira" levantou e por cartazes que hoje via Facebook pude ver, que eram erguidas a fim de dizer que Casamento do mesmo sexo era "PECADO". A partir dai comecei a imaginar se tal movimento começa a tomar proporções políticas mais aprofundadas. Não quero de forma alguma reduzir o espaço político que tal grupo tem por direito na esfera pública do debate, mas com essa ética dos fins últimos penso que deva haver mecanismos institucionais que ponham constrangimentos a essa agenda, se é que podemos chamar de agenda. Sei que pareço negativista, afinal é uma preocupação.
Hoje pela tarde, trocando pernas pelo centro parei numa banca e vi que eram cerca de 50 mil pessoas em tal movimento. Confesso que ,me assustei. Assustei pelo número de pessoas que tal "bandeira" levantou e por cartazes que hoje via Facebook pude ver, que eram erguidas a fim de dizer que Casamento do mesmo sexo era "PECADO". A partir dai comecei a imaginar se tal movimento começa a tomar proporções políticas mais aprofundadas. Não quero de forma alguma reduzir o espaço político que tal grupo tem por direito na esfera pública do debate, mas com essa ética dos fins últimos penso que deva haver mecanismos institucionais que ponham constrangimentos a essa agenda, se é que podemos chamar de agenda. Sei que pareço negativista, afinal é uma preocupação.
quarta-feira, 25 de abril de 2012
Tribo brasileira é a 'mais ameaçada do mundo', diz entidade
O grupo de defesa dos direitos indígenas Survival International afirma que os índios Awá, do Maranhão, formam a tribo mais ameaçada do mundo. Calcula-se que de 60 a 100 de seus cerca de 450 membros nunca tenham tido contato com o mundo exterior.
A Survival diz que a tribo vem perdendo território de todos os lados. Queimadas feitas por madeireiros acabam com seu habitat e o de seus animais. A entidade espera conseguir pressionar o governo para que este dê mais atenção ao problema dos Awá, classificado pelo juiz José Carlos do Vale Madeira em 2009 como "genocídio".
ver o resto da matéria em: http://g1.globo.com/brasil/noticia/2012/04/tribo-brasileira-e-a-mais-ameacada-do-mundo-diz-entidade.html%3Cdiv%20class=%22separator%22%20style=%22clear:%20both;%20text-align:%20center;%22%3E
sábado, 21 de abril de 2012
Escrita poética1
paro
respiro
reflito
lamento
penso
a quem devemos algo afinal?
aos homens livres que não sabiam transpor sua liberdade a outros campos
que nos guiaram ao abismo da subcultura
ou àqueles homens acorrentados
holocaustiados
que nos ergueram feito flores entre o asfalto?
respiro
reflito
lamento
penso
a quem devemos algo afinal?
aos homens livres que não sabiam transpor sua liberdade a outros campos
que nos guiaram ao abismo da subcultura
ou àqueles homens acorrentados
holocaustiados
que nos ergueram feito flores entre o asfalto?
segunda-feira, 2 de abril de 2012
Poesia
............................................
Grite para que eles lhe calem
Tema para que eles te respeitem
Exilar-se para poder sonhar
ou fique aqui comigo
e assista a festa
Vista suas fardas
Ponha sua taça a bailar
Comemorando o que lhes restou da ignorância
............................................
Grite para que eles lhe calem
Tema para que eles te respeitem
Exilar-se para poder sonhar
ou fique aqui comigo
e assista a festa
Vista suas fardas
Ponha sua taça a bailar
Comemorando o que lhes restou da ignorância
............................................
sábado, 31 de março de 2012
Passividade ou Resposta? Escolhas (in) viáveis dos partidos de esquerda.
Os escritos que se seguem almejam contemplar a configuração do cenário político, para a esquerda, entre as décadas de 20 e 60 (aproximadamente) do séc. XX. O objetivo central é apresentar como elementos objetivos da realidade constrangeram os horizontes político, social e econômico dos partidos que construiu sua agenda a partir dos escritos do velho Marx (e Engels) e de outros marxistas como Lenin, Gramsci, Rosa Luxemburgo, Trotski, etc. Algumas reflexões acerca da relação entre capitalismo e democracia, partidos políticos e o jogo político e questões éticas que tangem aos partidos serão abordadas no decorrer do post.
As décadas que correm entre 20 e 60 foram consagradas por fatos que vieram a marcar para sempre a história da humanidade. Basicamente: 1)Primeira Guerra Mundial, a qual, muitos atribuem a característica de guerra mais sanguinária já vista; 2)Organização de governos Fascistas 3)Revolução Russa, de onde arquiteta-se os meios para se alcançarem o socialismo; 4)Crise de 29; 5) Organização de governos nazifascistas; 6)Segunda Guerra Mundial e a vitória da democracia.
A organização da esquerda política se viu constrangida em todos esses momentos históricos. Por constrangido devemos entender que características estruturais configuram-se como fronteiras bem delimitadas para os planos práticos desse movimento. A primeira Guerra Mundial, assim como a Segunda, criou uma demanda emergencial para cobrir a guerra, ou seja, tudo que se produzia entre os países que estavam disputando a hegemonia tendia ao gládio entre nações. Com exceção da URSS que se retirou da guerra, ocupando-se com a Revolução interna que revirava o antigo sistema de dominação tradicional feudal, cuja soberania personalizava-se no Tzar. Segundo Przeworski, ao se fazer a Revolução Russa, o Estado organiza-se burocraticamente, encarna a função de "espinha dorsal", "cérebro social" do Estado Funcional Durkheimiano, ou seja, o novo Estado passa a organizar a sociedade, seus recursos, sua produção, sua economia, assumindo um capitalismo de Estado, cujo corolário se deu com a stalinização dos movimentos sociais e organizações políticas. A burocracia segundo Weber é uma característica do Estado Moderno, porém, uma "jaula de ferro". O Estado passa a se organizar como uma empresa, organização típica da burguesia. Tais características criam constrangimentos para o movimento socialista.
A crise de 29 aparece como um período em que se abre espaço para a vitória da ideologia socialista, mas também, por outro lado, cria espaço para o fortalecimento e manutenção da ideologia capitalista. Quando os níveis de desemprego apresentam-se incontáveis os discursos socialistas soam bem aos ouvidos daqueles que sentem as dores da crise, inclusive se propostas de cobrir demandas imediatas são criadas. Por outro lado, dá espaço para que o Capitalismo reforce suas estruturas mostrando que é capaz de "superar" crises, e projetar políticas econômicas de resultados eficazes, como a política Keynesiana.
O advento de governos nazifascistas neutralizou os projetos de movimentos de esquerda. “Intelectuais orgânicos” foram presos, organizações de esquerda eram proibidas, entre outras medidas que foram baixadas sobre eles. Já que falamos em “intelectuais orgânicos” é válido abrirmos um parêntese para incluir outro elemento que marcou os partidos socialistas: o constante academicismo do marxismo como disciplina filosófica. Se lembrarmos que o velho Marx iniciou seu projeto nas discussões filosóficas e os direcionaram para a práxis, podemos obervar em contraposição que os “marxistas ocidentais” nem sequer, com exceções de Gramsci (engajado politicamente), deram importância para a práxis, não trasbordaram a filosofia, mas tinham ela como finalidade em si. Para Gramsci, era necessário coadunar intelectuais e trabalhadores. Os intelectuais teriam como função traduzir a ideologia do sistema para que ideologicamente o proletariado se organizasse e conquistasse a hegemonia. A esfera da ideologia assume importantes dimensões para a contra cultura proletária.
O fim da segunda Guerra mundial, a priori, e depois o fim da Guerra Fria marcada pela queda do muro de Berlim teve como corolário a vitoria do sistema capitalista e da democracia como valores universais. Claro que tiveram países que optaram pelo “socialismo”, como Cuba. Acumulando muitas derrotas ao longo da história, a esquerda organizada teve de se render a algumas questões: devemos ou não jogar esse jogo burguês do Estado de direitos? Quais serão nossos objetivos? Fazer da democracia um meio ou uma finalidade? Se ganharmos o jogo, será que eles aceitarão a legitimidade governo? Além de perguntas, haviam fatos previstos para a entrada dos partidos socialistas na democracia: se nós contemplarmos com propostas políticas apenas a classe operária nós não alcançaremos o poder, uma vez que o jogo se define pela conquista da maioria (50% +1), logo, se visarmos atingir outras classes romperemos o sentido fundador do partido. Só havia duas cartas à mesa, e a escolha não era coerciva.
Uma vez que as demandas dos proletários eram de caráter imediato, a esquerda opta por entrar no sistema e lutar não mais pela revolução. A democracia torna-se uma finalidade para a esquerda, não mais um meio como antes. Abandonado o ideal revolucionário, as reformas surgem como horizonte possível. Pensava-se em garantir via sistema mudanças estruturais no próprio sistema. Mas isso não resiste à hegemonia do capitalismo. Posto que o capitalismo repouse sobre todas as consciências, não é tarefa fácil atuar junto ao proletário mais vulgar nadando contra a corrente. O capital é mais eficaz. Se as reformas não são aprovadas, resta lutar por garantir direitos trabalhistas, sociais e políticos. É isso que fazem com que eles se organizem como partido socialdemocrata.
Todos nós jogamos com a realidade posta. A esquerda teve que jogar com ela. É necessário que saibamos ler a história, assim como recomendou Maquiavel em O Príncipe. Estratégias devem ser traçadas para que fins sejam alcançados. Os fins não justificam os meios. Às vezes é necessário ceder a algo extraordinário para poder ganhar. Política é luta, violência, disputa. Não há espaço para caprichos, a não ser que você esteja por cima, caso contrário, bailará. A esquerda apenas respondeu a realidade da forma que leu-a. Não foi passível diante dela. Há quem tautologicamente afirma que se a esquerda se conservasse como vanguarda conseguiria resultados mais pontuais; outros, pensam o oposto. Não estamos aqui pensando no se, mas no como deve ser, o atual, o que exige análise diária.
As décadas que correm entre 20 e 60 foram consagradas por fatos que vieram a marcar para sempre a história da humanidade. Basicamente: 1)Primeira Guerra Mundial, a qual, muitos atribuem a característica de guerra mais sanguinária já vista; 2)Organização de governos Fascistas 3)Revolução Russa, de onde arquiteta-se os meios para se alcançarem o socialismo; 4)Crise de 29; 5) Organização de governos nazifascistas; 6)Segunda Guerra Mundial e a vitória da democracia.
A organização da esquerda política se viu constrangida em todos esses momentos históricos. Por constrangido devemos entender que características estruturais configuram-se como fronteiras bem delimitadas para os planos práticos desse movimento. A primeira Guerra Mundial, assim como a Segunda, criou uma demanda emergencial para cobrir a guerra, ou seja, tudo que se produzia entre os países que estavam disputando a hegemonia tendia ao gládio entre nações. Com exceção da URSS que se retirou da guerra, ocupando-se com a Revolução interna que revirava o antigo sistema de dominação tradicional feudal, cuja soberania personalizava-se no Tzar. Segundo Przeworski, ao se fazer a Revolução Russa, o Estado organiza-se burocraticamente, encarna a função de "espinha dorsal", "cérebro social" do Estado Funcional Durkheimiano, ou seja, o novo Estado passa a organizar a sociedade, seus recursos, sua produção, sua economia, assumindo um capitalismo de Estado, cujo corolário se deu com a stalinização dos movimentos sociais e organizações políticas. A burocracia segundo Weber é uma característica do Estado Moderno, porém, uma "jaula de ferro". O Estado passa a se organizar como uma empresa, organização típica da burguesia. Tais características criam constrangimentos para o movimento socialista.
A crise de 29 aparece como um período em que se abre espaço para a vitória da ideologia socialista, mas também, por outro lado, cria espaço para o fortalecimento e manutenção da ideologia capitalista. Quando os níveis de desemprego apresentam-se incontáveis os discursos socialistas soam bem aos ouvidos daqueles que sentem as dores da crise, inclusive se propostas de cobrir demandas imediatas são criadas. Por outro lado, dá espaço para que o Capitalismo reforce suas estruturas mostrando que é capaz de "superar" crises, e projetar políticas econômicas de resultados eficazes, como a política Keynesiana.
O advento de governos nazifascistas neutralizou os projetos de movimentos de esquerda. “Intelectuais orgânicos” foram presos, organizações de esquerda eram proibidas, entre outras medidas que foram baixadas sobre eles. Já que falamos em “intelectuais orgânicos” é válido abrirmos um parêntese para incluir outro elemento que marcou os partidos socialistas: o constante academicismo do marxismo como disciplina filosófica. Se lembrarmos que o velho Marx iniciou seu projeto nas discussões filosóficas e os direcionaram para a práxis, podemos obervar em contraposição que os “marxistas ocidentais” nem sequer, com exceções de Gramsci (engajado politicamente), deram importância para a práxis, não trasbordaram a filosofia, mas tinham ela como finalidade em si. Para Gramsci, era necessário coadunar intelectuais e trabalhadores. Os intelectuais teriam como função traduzir a ideologia do sistema para que ideologicamente o proletariado se organizasse e conquistasse a hegemonia. A esfera da ideologia assume importantes dimensões para a contra cultura proletária.
O fim da segunda Guerra mundial, a priori, e depois o fim da Guerra Fria marcada pela queda do muro de Berlim teve como corolário a vitoria do sistema capitalista e da democracia como valores universais. Claro que tiveram países que optaram pelo “socialismo”, como Cuba. Acumulando muitas derrotas ao longo da história, a esquerda organizada teve de se render a algumas questões: devemos ou não jogar esse jogo burguês do Estado de direitos? Quais serão nossos objetivos? Fazer da democracia um meio ou uma finalidade? Se ganharmos o jogo, será que eles aceitarão a legitimidade governo? Além de perguntas, haviam fatos previstos para a entrada dos partidos socialistas na democracia: se nós contemplarmos com propostas políticas apenas a classe operária nós não alcançaremos o poder, uma vez que o jogo se define pela conquista da maioria (50% +1), logo, se visarmos atingir outras classes romperemos o sentido fundador do partido. Só havia duas cartas à mesa, e a escolha não era coerciva.
Uma vez que as demandas dos proletários eram de caráter imediato, a esquerda opta por entrar no sistema e lutar não mais pela revolução. A democracia torna-se uma finalidade para a esquerda, não mais um meio como antes. Abandonado o ideal revolucionário, as reformas surgem como horizonte possível. Pensava-se em garantir via sistema mudanças estruturais no próprio sistema. Mas isso não resiste à hegemonia do capitalismo. Posto que o capitalismo repouse sobre todas as consciências, não é tarefa fácil atuar junto ao proletário mais vulgar nadando contra a corrente. O capital é mais eficaz. Se as reformas não são aprovadas, resta lutar por garantir direitos trabalhistas, sociais e políticos. É isso que fazem com que eles se organizem como partido socialdemocrata.
Todos nós jogamos com a realidade posta. A esquerda teve que jogar com ela. É necessário que saibamos ler a história, assim como recomendou Maquiavel em O Príncipe. Estratégias devem ser traçadas para que fins sejam alcançados. Os fins não justificam os meios. Às vezes é necessário ceder a algo extraordinário para poder ganhar. Política é luta, violência, disputa. Não há espaço para caprichos, a não ser que você esteja por cima, caso contrário, bailará. A esquerda apenas respondeu a realidade da forma que leu-a. Não foi passível diante dela. Há quem tautologicamente afirma que se a esquerda se conservasse como vanguarda conseguiria resultados mais pontuais; outros, pensam o oposto. Não estamos aqui pensando no se, mas no como deve ser, o atual, o que exige análise diária.
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Aristóteles nos tempos atuais
Lendo Ética a Nicômaco (Aristóteles, 1966), deparei-me com uma discussão travada pelo autor cujo escopo era “desembrulhar” o que seria algo deliberado e seu anverso. Aristóteles inicia essa reflexão ao perseguir uma resposta ao que seria a “excelência moral” e como se chegar a ela – ponto central em seu livro III.
Então, qual o significado de deliberado para Aristóteles? Para podermos compreender este conceito devemos nos ater a conceitos anteriores trabalhados na obra (no mesmo livro III) como “escolha” e “ação voluntária e involuntária”. O que compreendemos, a partir da leitura daquele autor, sobre ação voluntária e involuntária? Resumidamente, por ação voluntária devemos compreender que a ação em si, sua natureza, parte do interior do indivíduo, não sendo determinado pelo exterior deste. Involuntárias seriam “as ações praticadas sob compulsão ou por ignorância; um ato é forçado quando sua origem é externa ao agente, sendo tal a sua natureza que o agente não contribui de forma alguma para o ato, mas ao contrário, é influenciado por ele (...)”. Claro que o exercício filosófico da busca de conceitos por Aristóteles não encerra desta maneira, mas trilha muitos caminhos e possibilidades de formulação.
Passamos agora para o conceito de “escolha”. Utilizando-se da comparação entre animais e seres humanos o autor norteia a discussão para o caminho do racional-irracional.
(...) a escolha requer o uso da razão e do pensamento. (ARISTOTELES, 1966: pg. 156)
Nestas condições, somente os seres humanos podem inclinar-se para a escolha. A escolha envolve algo de premeditado, algo cognoscível à percepção humana. Chegamos então ao conceito de “deliberado”.
Para Aristóteles, o conceito de deliberado toca a capacidade do homem decidir sobre sua realidade: modifica-la ou mantê-la. Mas, há coisas sobre as quais os homens não podem interferir, entre elas, os objetos de estudos das ciências exatas e autônomas (imagine se possível deliberar sobre quais moléculas formarão a substancia água?).
Toda essa discussão envolvendo intenção, escolha e deliberação me faz pensar sobre um problema muito em voga nos tempos atuais: meio ambiente. Se é verdade que mantendo o modo de produção capitalista atual nós caminhamos para a destruição da natureza, por que não mudar? Se o sistema é cognoscível (característico da “escolha”) e toca a uma construção humana, é algo que pode ser deliberado. Mas onde se encontra a escolha? Principalmente a da mudança? Encontro a resposta na modernidade Weberiana.
A modernidade tocada pelo capitalismo figura-se na “jaula de ferro”, num aprisionamento dos indivíduos a um sistema rígido. Se pensamos na modernidade por um ponto de vista das diversas identidades, pluralizações, não podemos esquecer que há um continuo processo de padronização ética e estética, em que a produção dita o consumo e a busca incessante por lucro dita a moral e a ética. Esse sistema neutraliza a deliberação, direciona a escolha e corrompe a intenção; ou seja: a preservação do meio ambiente incompatível como sistema.
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
"O Brado Retumbante"
O assunto que proponho trabalhar neste post toca à nova "série", "minissérie" (chame como desejar) transmitida pela singular Rede Globo: "O Brado Retumbante". Desde já, deixo claro que este post é muito mais um exercício de previsão do que será tal "programa", tendo em vista que ontem passou o primeiro capítulo.
Acredito que as proposições que aqui serão expostas não estão pautadas em solo desconhecido, mas parte de uma singela análise do significado do político referente às idéias do senso comum de nossa população e também de como esse mesmo político é tratado pela mesma emissora. Doravante defendo a idéia de que esse imaginário político de nossa população não seja algo sui generis, peculiar à sociedade, mas construído em determinado período histórico por uma determinada classe e que até hoje sofremos com seus efeitos deletérios. Comecemos então por essa construção do imaginário político.
Segundo W. Guilherme dos Santos em Quem dará o golpe no Brasil? o Brasil na década de 50-60 sofrera com um processo de demonização da política. O que isto significa? Significa afirmar que o solo da política é permeado por camadas corruptas da sociedade, usurpadores do poder público, ladrões da ordem pública, "comunistas", etc. Não excluo essa característica. Afinal, Sarney ainda é presidente do Senado; mas também critico essa postura demonizadora. Para Santos, essa demonização da política era somente um instrumento que arava o solo para um golpe de direita, para ideologias liberais, de mercado, capitalistas mundiais. Poderíamos criar um slogan para a campanha, sendo ele mais ou menos assim: "Política para quem entende de política". Ou seja, técnicos, burocratas. O lugar do povo era na platéia, na urna. Assim a direita poderia controlar o que era essencial, a política, que se passava por um zero à esquerda.
Mais tarde, a cena da política é assumida fortemente pela corrupção. A agenda de combate à corrupção surge como algo que veio “destruir algo novo”, que não havia antes na história. Talvez seja o vício que a classe dominante tem de esquecer o passado (escravista, oligárquico, excludente, desigual e sempre corrupto), de apagar a verdadeira história brasileira da cognição de seu povo. Enfim, tudo que hoje toca a política está ligado à corrupção. Política é isso: espaço destinado a oportunistas assaltarem o público, que às vezes me parece ser correspondido pelo "o que é de ninguém" e às vezes, num surto positivo, "no que é de todos”.
O problema da identidade “política-corrupção” não seria tão escandaloso, aos meus olhos, se fosse cobrado uma resposta às virtudes das leis e instituições que circunscrevem o problema. O problema é que todos esperam um Jesus Cristo político. Esperamos um homem virtuoso que salve todos nós da chaga nacional. Minha previsão sobre "O Brado retumbante" se esgota nesse argumento. Tal "série" nos faz pensar que a cura a tal chaga é esperar que um Jesus caia na Alvorada e nos Salve. Podemos abrir um parêntese com outra reflexão: por que o homem virtuoso tem que ser visto apenas como chefe do executivo, e não do legislativo ou mesmo do judiciário. Será que o executivo é mais forte, mais importante, enfim, “mais”? Montesquieu não gostaria de saber disso. Outro elemento que pude perceber na "série" é a tentativa de apresentar uma teatralização do político pelas figuras de ministérios que parecem a primeira vista irrelevantes, como Ministério da pesca fluvial, etc. Política não é teatro, mas sim um processo de deliberação sobre a "polis" e seus elos. Todos nós fazemos política em todo momento que nos relacionamos com o outro. Política não é feita somente naquele espaço restrito, entre quatro paredes; embora em nossa história assim se fez e faz durante anos. Não julguemos a essência pela forma, pelos “acidentes”, como orientava Aristóteles. Permanecendo nossa análise nos escritos do bom e velho Aristóteles, é possível entender essa problemática pela relação que o mesmo filósofo faz do “bom cidadão” e do “homem bom”. A virtude do “bom cidadão” varia com a constituição da Cidade da qual ele é membro. A do “homem bom” não; esta já representa a uma única virtude, singular. A metáfora do marinheiro (Livro III, cap. IV) é excelente para entendermos a virtude do cidadão. A virtude do “bom cidadão” reside no bom desempenho do seu trabalho. Aristóteles atesta tanto para a impossibilidade da Cidade ser constituída de “homens bons” mas afirma que uma perfeita Cidade deve, e só, ser constituída de “bons cidadãos”. Aqui nos encontramos com o propósito do post: Na política e em outras esferas da vida social esperamos sempre a presença de um “homem bom”, nunca a de um “bom cidadão”. Isso leva tanto a debate moralizante da política que ao mesmo tempo desvirtua de seu escopo principal.
Gostaria que o assunto que se faz diante a corrupção tocasse a virtude das leis, das instituições políticas e não dos indivíduos, uma vez que a virtude do indivíduo varia com a constituição a qual ele pertence. Uma outra questão: Por que as empresas envolvidas nos casos de corrupções não merecem nosso veto? Afinal, penso que são os empresários que procuram os políticos e não o contrário. No final, eles também assaltam o público. Passo a bola da reflexão.
O ultimo recado que gostaria de deixar: Jesus Cristo somos todos nós. A cada dia morre um Jesus na fila do SUS. Não esperemos que façam por nós.
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
Como o Idealismo matou o Jornalismo

Precisamos repensar o jornalismo. É com essa frase que abro esse texto, por um motivo óbvio, creio que nossa reflexão sobre a produção jornalística não é capaz de captar a realidade desse mundo controverso e cheio de ciladas que é o campo jornalístico. De inicio pode-se pensar que essa proposta está relacionada à nova realidade online, às redes sociais ou coisas do tipo. Mas definitivamente não são esses pontos que motivam a reflexão. Penso, sobretudo, em alguns fatos que afetaram o jornalismo. Dou destaque a dois, o caso Murdoch e a cobertura do Pan Americano feita pela Globo.
Os dois casos, em si, em nada se assemelham. Em um, estamos falando da quebra de sigilo telefônico de mais de 4000 pessoas na Inglaterra e as relações promíscuas entre um conglomerado de mídia e setores políticos interessados. No outro, a questão levantada é a do interesse público em torno de um evento, ao qual foi dado menor importância devido a disputas de audiência com a Record. Mas, ainda assim, cabe perguntar o que aproxima esses casos?
Ambos são sintomas de uma prática jornalística que não mais se pauta por valores (valores notícias e interesse público, por exemplo), mas por interesse econômico. Os ganhos, os lucros, estão acima do bem informar a população, o valor econômico passa a ser o principal na veiculação de notícias. É nesse ponto que está o grande desafio de quem se preocupa em pensar a prática jornalística atual.
A maior parte dos estudos sobre jornalismo partem de uma idéia de jornalismo pré formatada e tentam medir a realidade com essas concepções. Há a esperança de que essas idéias sejam capazes de alterar o mundo dos jornalistas. Isso tem um nome: Idealismo. A maior parte das pesquisas em jornalismo hoje em dia são idealistas e prendem-se a uma dicotomia improdutiva chamada de Bom e Mau jornalismo. Enquanto pensarmos dentro dessas perspectiva, e por meio de todo aparato por ela construído, estaremos pisando em nuvens, mas não estaremos mostrando como é de fato a realidade produtiva do jornalismo. É preciso inverter a ordem desses fatores.
O jornalismo precisa ser pensado a partir de sua produção, pois não são as idéias que descem do céu, elas são produzidas nas relações sociais, econômicas e políticas na qual um jornalista, ou uma empresa jornalística, está inserida. Pode chamar, se quiser, de Teoria Materialista do Jornalismo. Para entender o Caso Murdoch, ou a Cobertura do Pan, deve-se estar além de bom e mau. Necessita-se questionar, como as empresas se posiconam? E como isso aparece em seus jornais? Como se dão as relações de trabalho em cada uma delas? Qual foi seu método de apuração das matérias? Quais são as disputas econômicas envolvidas entre as empresas de comunicação?
Essas questões seriam capazes de construir um escopo geral para se entender um pouco melhor essa realidade do jornalismo movido por valores econômicos. A partir dessas questões entra outra fundamental, por que como disse Marx, não podemos nos limitar a interpretar o mundo, é preciso transformá-lo. Essas questão é para dar conta de uma deontologia, de um dever moral do jornalista. Veja bem não estou falando de ética, não estou falando de padrões universais. Estou falando, para que a partir da interpretação da realidade jornalística atual, propormos algo diferente. E esse “algo diferente” passa, necessariamente, pelo entendimento da realidade atual conjugada com propostas de transformação desse mundo.
Cícero Villela - Graduando em Comunicação Social na UFJF
terça-feira, 15 de novembro de 2011
O plano “UPP”: ocupar sem integrar

O fato não se inicia agora, mas há alguns meses atrás com a ocupação de outras favelas que não a Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu, totalmente ocupadas nessa segunda feira, véspera de feriado do dia da Proclamação da República, pelas forças que usam de forma legítima da violência para assegurar a ordem do país e estados (Polícia Militar, Civil, Forças Armadas em geral).
Acerca desses fatos gostaria de levantar algumas considerações no que tange esse processo de ocupação das favelas e da implantação de Unidades de Política Pacificadora (UPP) nas mesmas. As informações que a mídia, em particular a Rede Globo, lança aos telespectadores de plantão serão postas em comparação com a realidade de fato. Sendo assim, já desconsidero as visões que a Globo entre outras emissoras fazem desses fatos.
As informações que recebemos dessas invasões mostram que a situação da favela e das pessoas que lá residem é de extrema pobreza: não há saneamento básico, coleta de lixo precária, escolas de qualidade, acesso à saúde, segurança etc. Todas essas “ausências” e “precariedades” são de responsabilidade do Estado. O problema é que tudo isso vive sendo justificado pela presença do tráfico e traficantes nas favelas. O que tem a criação de um hospital a ver com um traficante? O que tem a ver uma educação de qualidade com o tráfico de drogas? Os problemas enfrentados pelas favelas em geral são mais pela falta do Estado do que pela presença do tráfico.
Sendo assim, qual o fundo que não quer ser tornado público sobre as UPP’s? Essas unidades são, nada mais nada menos do que medidas de repressão, que criminalizam a pobreza, que reprimem moradores e trabalhadores das favelas, que fazem um cinturão que se desenha como um cerco entre as áreas pobres e a zona sul (onde se concentra o verdadeiro Rio de Janeiro da mídia e dos estrangeiros). Os mega eventos – Copa de 2014 e o PAN – também tem influência sobre isso. Por que só agora, depois de anos que esse fato está ocorrendo sendo esse processo de tanto interesse do Estado.
Não defendo aqui a permanência do tráfico nas favelas, mas não defendo a ideia de que a presença e a força que o tráfico tem assumido seja por escolha e pela disposição espacial delas, mas pela inoperância do Estado nessas terras. “Nem bandido nem polícia, será o dia do alívio”. Esse trecho retirado da música Dia do Alívio do grupo carioca Forfun retrata bem minha posição perante esse problema, por mais utópico que seja. Por fim, concluo dizendo que todo esse projeto de melhora de vida levada as favelas por meio das UPP’s são ilusórios. Ela não leva a redistribuição, portanto não leva a integração asfalto-favela. Ela representa apenas uma dominação territorial, uma guerra maquiaveliana de ocupação e controle do território.
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
Comissão da Verdade / Ditadura

Acabo de ler em http://sarauxyz.blogspot.com/2011/10/argentina-condenacao-criminosos.html uma notícia que me agradou muito: os militares, atores de violência e tortura no período ditatorial Argentina foram condenados. É sempre importante resgatar na história alguns fatos que ocorreram e tentar reparar danos, mesmo que estes sejam simplórios perto dos PREJUÍZOS causados. Tal atitude só fortalece a ideia de que a Argentina, nossos hermanos, não tem medo do seu passado, mesmo quando este é perverso. Salve me engano, a ditadura Argentina foi a que mais sanguinária da América Latina.
Enquanto isso no Brasil a tal da Comissão da Verdade se mostra opaca, sem definição do que levará a público, com medo de apresentar ao país quem esteve por traz da ditadura militar, que por sinal vai muito além dos militares, quem financiou, quais os verdadeiros interesses que estiveram por traz desse "golpe de Estado", da coroação de um "bloco histórico" que surrupiou nosso país, vendendo-o a preço de banana. Até hoje sofremos os efeitos deletérios desse período, e digo: constituem ainda os eixos do nosso projeto político e econômico.
Mas qual o sentido de esquecer o passado? Com certeza esse é um dos pré requisitos para superar o atraso, o tradicional que segundo nossos "salvadores" só impedem a instauração do moderno, racional. Isso se justifica ainda mais, dentro dessa lógica, quando um país possui uma história de aproximadamente 300 anos de escravidão - país este que tem 511 anos de "história relatável"-. Deve ser isso o que se passou na cabeça de Rui Barbosa, ídolo de muitos advogados positivistas, quando mandou queimar os arquivos da escravidão. Essa dialética tradicional vs. moderno que chegou a nós como uma imposição do "centro" só traz modernização para uma classe, a que está por cima, detentoras dos mais lucrativos "ativos de produção", monopolizadores do capital. Para o restante da população (QUE É A MAIORIA) fica apenas o stigma de atrasado, delinquente, marginal. Quem produz isso é essa burguesia nacional e internacional.
Olhar para o nosso passado sem vergonha e medo do que de fato aconteceu é essencial para construirmos um país para o povo brasileiro. É por não olhar para o passado que se "cria constituição francesa para não franceses", novo código florestal para pequenos produtores e de subsistência (históricos em nosso país), entre muitas outras façanhas.
Acredito que o Brasil dará um passo muito importante tornando público e condenando os atores desse golpe contra o país, contra o povo brasileiro.
domingo, 23 de outubro de 2011
Entre intelectuais e artistas

Em uma das minhas visitas ao site www.cartacapital.com.br me deparei com uma campanha arquitetada por Fernando Meirelles - cineasta, roteirista e produtor brasileiro - reconhecido por trabalhos como Cidade de Deus, O Jardineiro Fiel, Ensaio sobre a Cegueira (José Saramago)cujo objetivo é levar verbalizações indignadas, aos senadores, no que toca a proposta do novo Código Florestal, encampada por Aldo Rebelo (PCdoB,SP). Para tal missão, Meirelles convoca o alto escalão de atores e artistas, que entre eles estão: Wagner Moura, Lenine, Rodrigo Santoro, Fernanda Torres. Esses nomes são mais do que comuns no Brasil, de norte a sul, leste a oeste, sempre lembrados como "figuras televisivas", celebridades.
Podemos afirmar que no Brasil os diversos tipos de movimentos sociais estão na maioria dos casos associados a este subgrupo de indivíduos. Documentários sobre a ditadura militar, o movimento das "Diretas Já!", os "Caras pintadas" mostram como esse segmento se mostrou presente nos processos de mobilização social. Seja com Vinícius de Moraes, Tom Jobim e Elis Regina apoiando e convocando o povo brasileira a ir as ruas contra a ditadura, seja Geraldo Vandré levantando as massas no "Festival de Música Popular Brasileira" com "Pra não dizer que eu não falei das flores". Não só nos movimentos sociais mas também nas interpretações do Brasil que vieram desde cedo nos sambas de Noel Rosa e depois com Chico Buarque de Hollanda, entre muitos outros artistas. No cinema tínhamos a grande figura de Glauber Rocha. Sendo assim, não é estranho a nós essa atividade cultural-política de atores da esfera cultural brasileira nos diversos processos e fatos nacionais. Atualmente esses papeis vem sendo mais incorporados por atores da grande mídia televisiva (massmedia).
Podemos colocar alguns questões que problematizem o tema. Uma delas é acerca do papel ideológico do artista e do tipo de ideologia que este leva em seus discursos, ações etc. Será capaz o artista de atuar como intelectual orgânico de uma classe promovendo os interesses desta e, também, despertar uma visão critica nas pessoas acerca da vida e corpo social que estas estão inseridas? Geralmente esse papeis são destinados aos intelectuais. Se recorrermos a algum autor encontraremos em Gramsci leituras que dizem respeito aos papeis dos intelectuais na sociedade. Constitui-se assim uma visão de "intelectuais públicos", que Luis Werneck Vianna faz gosto.
Portanto, uma coisa é certa: Na falta de "intelectuais públicos" a figura de ator e artista assume esse papel, tendo no Brasil uma de suas expressões.
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
Liberdade Seletiva

Os Estados Unidos da América, tido por vários países (inclusive por eles próprios)como centros de referência no que tange a igualdade, liberdade, modernidade, entre outros adjetivos mostra que esses mesmos adjetivos só podem ser vivenciados por seus nativos. O país dito democrático convive com o problema - assim assumido por eles - da imigração, ou seja, a entrada no país de indivíduos de outras nacionalidade, etnias, em sua grande maioria hispânicos. Medidas políticas são tomadas a anos para controlar esse fluxo migratório, seja levantando muros nas fronteiras, os mesmos escoltados pelo exército, deportando os imigrantes "ilegais", etc.
Acabo de ler na Carta Capital que lançou, no Estado do Alabama, o HB 56, parte da legislação anti imigração, que obriga as escolas a notificarem aos órgãos federais a situação dos alunos imigrantes. Essa medida teve impactos maléficos: milhares (1783 especificamente) de crianças e jovens deixaram de frequentar a escola por medo de serem, com suas famílias, despejadas para fora do país. Se a população hispânica já não está inserida de fato na sociedade norte-americana em todos seus aspectos político, social e econômico, imagine agora com a baixa do nível educacional destes. Essa medida só esquenta ainda mais o preconceito contra os imigrantes nos EUA, seja na escola com a figura do aluno estigmatizado, ou expressa nas discrepâncias das rendas desses imigrantes postas ao lado dos "nativos". Casos em que dois indivíduos - um hispânico e outro "nativo" - que ocupam o mesmo cargo numa empresa receberem salários diferentes é mais do que comum, é praticamente uma regra social. Nesse período de crise até que os norte- americanos aceitam receber os mesmo salários, mas aposto que não por muito tempo.
Outros problemas, talvez menores, mas existentes afetam diretamente a economia, uma vez que as famílias de imigrantes estão mudando do Estado deixando para trás safras e mais safras de alimentos que irão apodrecer.
Os EUA não são os primeiros a passarem por isso. Esse fato é histórico, seja no Apartheid ou mais recente na França, quando o primeiro ministro pagou uma taxa de retorno (ao país de origem) para os imigrantes que geralmente vinham do norte da África.
Um país que, como os EUA, querem se dar o luxo de serem os mais democráticos, mais livres, etc. devem, obrigatoriamente saber lidar com as diferenças de forma que os dois lados sejam atendidos e não legitimar uma tirania da maioria, como foi apontada por Toqueville e é a realidade daquele país.
Contudo, essa medida já começa a ser discutida por diversas instituições, inclusive dos professores, como a AFT (Federação Americana dos Professores; sigla em inglês).
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
Quem constrói as informações da mídia?

Precisamos de uma revolução na mídia brasileira. É impossível acreditar na neutralidade da mídia, ainda mais na sua liberdade de imprensa. Esse segmento adora reivindicar sua liberdade de imprensa para poder sensurar seus próprios funcionários. Esse não é o primeiro caso . Lembro logo do caso de Maria Rita Khel, demitida por "um delito de opinião" (palavras dela). Esta psicanalista foi demitida, após expor sua opinião acerca do "Bolsa Família", (ver http://diogotourino.blogspot.com/2010/10/dois-pesos-maria-rita-kehl-o-estado-de.html ) do Estado de São Paulo (Estadão). Quando o ex-presidente Lula afirmou que a mídia atua como partido, esse segmento se sentiu a classe mais ofendida do mundo: ofendidos pela verdade. Paro por aqui com uma pergunta para que todos reflitam: QUEM CONSTRÓI A INFORMAÇÃO QUE CHEGA A SUA CABEÇA? OS FATOS EM SI OU O QUE UMA CLASSE QUE INTERPRETA ESSES FATOS, TENDO SEUS INTERESSES COMO PONTOS FULCRAIS DESSA INTERPRETAÇÃO? TODO CUIDADO COM A MÍDIA É POUCO!
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
Quem senta à mesa?

Quem senta à mesa?
Introdução
Luis da Câmara Cascudo em sua obra intitulada História da Alimentação no Brasil colocará sob a mesa um novo olhar, sociológico, acerca da culinária nacional. Muito além de uma simples resposta a fome, a alimentação, logo a culinária, está envolvida numa teia que interliga complexos sociais, políticos, econômicos, artísticos, literários, líricos, pictóricos, etc. O enfoque social supera o nutricional nessa obra.
Um dos aspectos fundamentais para uma compreensão aprofundada da alimentação está, para o autor, na relação que o mesmo faz entre o “complexo verbal” e a culinária. “O complexo verbal” é de grande importância para uma sociedade, pois através dele que se legitimam poderes econômicos, políticos e sociais. Para Ortega y Gasset, cada geração sente a necessidade de criar novos vocábulos para alojar seus entusiasmos. Na culinária podemos observar o mesmo, mas em instâncias menores, como nome de doces (beijinho, suspiro de anjo, teta de nega, olho de sogra, etc.) que estão intimamente ligados as relações amoroso-sexuais do povo brasileiro. Nessa comparação (com o “complexo verbal”), diz Cascudo, a ciência culinária perdeu a mística verbal que a ambientava. Não foi adquirida uma consciência da culinária, possuímos apenas uma consciência do estado da fome. Sendo assim, afirmamos que o complexo culinário, enquanto psicologia coletiva, continua obscuro para nossa sociedade.
Aqui se faz a ideia do título, “Quem senta à mesa?”, pois trabalharemos com todos esses complexos que envolvem o simples e ao mesmo tempo complexo hábito de alimentar.
As dimensões da culinária
A culinária faz parte da sabedoria popular. Receitas são passadas de geração em geração por linhagens familiares. Sob a forma de textos ou sabiamente decoradas. O Folclore alimentar é muito rico, estendendo-se até para os mitos: quem comer manga com leite vai passar mal. Etc. Devemos compreender tudo que envolve a culinária para percebermos suas riquezas.
Como dissemos na introdução, a culinária está presente numa trama de teias que interligam complexos sociais, econômicos, políticos, religiosos, etc., relacionando-se um a uma na vida social. A partir desse pressuposto trataremos da culinária em cada um desses complexos, resgatando seus valores simbólicos, econômicos e políticos. Primeiro trataremos dos valores econômicos e políticos da culinária, pois acreditamos ser muito importante para compreendermos o sistema no qual estamos submetidos e qual o papel da culinária na organização desse sistema, depois trataremos rapidamente dos aspectos religiosos. Nosso foco de discussão é o primeiro “complexo”.
Dentro do complexo econômico- político podemos primeiro apresentar uma tese que coloca a culinária como um elemento de distinção de classes e para isso basta direcionarmos nossos olhos para os “potlatchs” como ceias de natal, ano novo, aniversários. Se gasta muito dinheiro para celebração de um dia, festivo no calendário. Quanto maior e com mais variedade for a culinária, maior é a posição dessa pessoa na hierarquia social. E, como membro de uma classe, essas pessoas seguem esses padrões festivos para se reafirmarem como membros dessa classe, buscando cada ano aumentar o “poder” da sua ceia. Outro exemplo é como as pessoas se comportam à mesa: suas maneiras de conduzir os talheres, de alojar o guardanapo, etc. “Ou você come como um peão de obra ou se comporta a mesa”. Observa-se claramente como os alimentos estão diretamente ligados as hierarquias de classes.
Outro aspecto ligado à economia da alimentação está ligado ao tempo que destinamos a nossas refeições. Geralmente, o tempo que se leva para terminar uma refeição é de 15 minutos; tempo muito pequeno para que seu corpo possa realizar um trabalho com todos os nutrientes da comida. A partir disso devemos nos perguntar como esse tempo é determinado e logo encontramos a resposta no sistema econômico capitalista e no modelo de sociedade moderna em que vivemos; sociedade essa em que corremos o dia inteiro, com pressa, sem tempo para nada, muito menos para satisfazer as necessidades do nosso corpo, como a da alimentação. O relógio do capital é que move nossas bocas e escolhe o que comeremos. Move nossas vidas. Vivemos com pressa e morremos devagar, enquanto o barato da vida é viver devagar e morrer depressa. Não é a toa que a culinária dos E.U.A pauta-se em fast-foods (MC DONALD’S, BURGER KING’s, BOB’S, etc.), alimentos muito saturados e artificiais que esta levando mais da metade da população desse país a obesidade. Mas pra que se preocupar se com esse tipo de culinária consegue-se manter o proletário em pé na fábrica durante horas. Na Inglaterra, no período da Revolução Industrial, o açúcar era muito presente na alimentação dos operários, pois sua ingestão mantinha a classe trabalhadora (explorada) sem fome por um bom tempo e dava energia para o trabalho. A falta de tempo para se alimentar corretamente faz parte da lógica do capital: Time is Money! O empregado tem previsto em lei uma hora para se alimentar e dentro dessa hora perde 30 minutos para ir e voltar ao local onde faz a refeição, 15 minutos para fazer a refeição e 15minutos restantes para fazer a digestão. Com pouco tempo para a refeição, o trabalhador busca fazer suas refeições em restaurantes . Mas, também há aqueles que não comem em restaurante, mas acabam se entregando à culinária corrompida do capitalismo, trocando a terra pela lata . O paladar é a vítima do capitalismo. A estética do alimento substitui sua saúde. Usamos agrotóxicos, fertilizantes e várias outras drogas para criarmos alimentos gordos e coloridos, que falsamente são posto como sinônimo de riqueza proteica. Tira-se o gosto orinal do alimento, substituindo por um artificial. Bebemos suco de laranja com veneno. Mas tudo isso é importante para o mercado exportador, pois seu lucro é muito maior. Podemos, com uma analogia que Cascudo faz do homem- máquina, entender como o capitalismo organiza nossa alimentação: Assim como a máquina não escolhe o óleo, o trabalhador não escolhe o que come. “As tentativas econômica e técnicas do “prato único” nos refeitórios industriais são peças desse xadrez” (CASCUDO, p. 450).
Por fim, tem-se a culinária ligada ao complexo religioso, que implica em algumas questões como a posição dos Indianos com relação a carne de vaca. Para eles a vaca é um animal sagrado. Quem a usar em sua culinária está constrangendo diretamente os deuses. Os católicos também se abstêm da carne vermelha na Semana Santa. Contudo, a relação mística entre religião e culinária não é apenas proibitiva, como o caso da indiana, há exemplos em que o alimento era tido como sagrado para determinadas tribos e fazia parte do seu prato diário. A mandioca mesma surge d’um mito. Assim também é a carne de porco para os Cubanos. E assim se constituem outros mitos em torno dos alimentos.
Podemos adentrar em outros complexos com outros exemplos: experimente comer sem camisa. Quase 100% da população acharia isso uma falta de educação. Quem nunca ouviu um “coloca a camisa pra comer menino!”? Quem vai à alguma festa logo espera uma fartura alimentar. Festa sem comida não é festa, e ai do dono da festa se não oferecer o que comer. Cai na língua do povo. Funerais também são exemplos que apresentam uma lógica culinária singular.
Conclusão
Para Cascudo, a culinária, logo a alimentação, pode ser entendida como a base do complexo cultural de uma sociedade. É partir desse pressuposto que o autor afirma que a culinária/alimentação faz parte da cultura. É cultura; das mais primordiais que se possa imaginar. Superada talvez pelas relações de parentesco que Levi-Strauss trabalhou. Em tudo há comida no meio, ou a falta dela (vê-se o exemplo dos prisioneiros políticos de Cuba, os quais utilizam-se da greve de fome para almejar sua liberdade ou melhorias locais). Em um curso de Folclore Brasileiro o Porf. Gilberto disse que os U.S.A adoram fazer uma guerra porque não se alimentam direito. Quem se alimenta direito repousa posteriormente. A alimentação requer um descanso. Claro que foi uma ironia da parte dele. Por fim, uma das coisas que mais me intriga no que tange a alimentação é saber que na terra do Sol (América do Sul, do Sol), com toda abundância natural, há milhões de pessoas que passam fome. Enquanto na Amazônia “o peixe pula a sua boca e a manga cai em sua cabeça”, nos grandes centros urbanos pessoas reviram os lixos em busca do que comer. A conclusão que devemos tirar daí é: que alem da culinária/alimentação ser um processo social, a fome também o é. E somos nós os responsáveis por elas.
O povo é o que ele come!
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CASCUDO, Luis da Câmara. História da Alimentação no Brasil. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. Da Universidade de São Paulo, 1983.
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
Os negros não são os mesmos depois de Gilberto Freyre
O papel do negro na sociedade brasileira deve ser pensado sob diversos pontos históricos: o primeiro pelo o papel desempenhado por eles no regime escravocrata, da "Casa Grande & Senzala" e o segundo, no pós 1888, quando são inseridos marginalmente na vida urbana. No primeiro momento essas pessoas de cor eram estigmatizadas como escravas, e a partir desse rótulo sofriam as maiores barbaridades do regime (submetidos a várias horas de trabalho braçal forçado, sem descanso, péssima alimentação, sem nenhum direito, apenas o de chorar quando levado ao pelourinho). Em desacordo com Gilberto Freyre nesse ponto, não acredito numa relação "doce", "harmoniosa" que este observa na relação escravo- senhor(a), mesmo quando no espaço doméstico, mas não posso descordar que nossa política social para com esse povo de cor não era a mais brutal do mundo. Só no Brasil conheço casos (por meio da literatura de Aluizio de Azevedo) em que escravas vestiam longos vestidos que caracterizavam a nobreza, conforme o gosto de suas “madames”. O rigor distintivo cultural não era tão rígido. Em oposição ao Brasil temos exemplo do Apartheid Norte-americano e Sul- africano. Por se configurar de maneira singular na história, como dito acima, Gilberto Freyre optou por retratar a escravidão brasileira mais pelo seu lado doméstico, que para ele chegava a ser “doce”, “hamônico”.
Acredito ser esse um dos pontos perecíveis da obra de Freyre: não deter seu olhar sociológico para o escravo da Senzala como merecido. Contudo, não podemos esquecer o que a obra de Freyre ("Casa Grande & Senzala") tem de essencial: um reconhecimento desse povo de cor e todos os elementos culturais, sociais e políticos que herdamos deles e que estão vivos até hoje.
Contudo, a história do negro não pode ser só marcada como a história escravocrata brasileira, mesmo que essa represente 1/5 de nossa história e ainda hoje, com todo movimento abolicionista do pré 88, sofremos com efeitos deletérios daquele passado sombrio, que nada havia de “doce”. Com o fim (em tese) da escravidão, a dialética ganhou novas características, não mais acentuadas por escravos e senhores de engenho (já em crise naquele período), mas agora entre pretos e brancos. É no mesmo século XIX que teorias de cunho raciais e racistas (Oliveira Vianna em “Populações Meridionais do Brasil” in http://www.observadorpolitico.org.br/2011/07/grandes-ironias-sobre-a-questao-racial-%E2%80%93-parte-i/ e http://www.observadorpolitico.org.br/2011/07/grandes-ironias-sobre-a-questao-racial-%E2%80%93-parte-ii/) ganham forças entre intelectuais e acadêmicos de todo mundo. A miscigenação do Brasil, do contato entre os povos de cor e os brancos, era como uma cólera social. Inicia-se assim a política de “descoloração” populacional. Resumindo: o Brasil só de brancos e só para brancos.
A “liberdade” adquirida pelos negros em quase nada serviu para eles. Mudou-se apenas o sistema de dominação, atualizado pela oligarquia nacional em virtude de pressões capitalistas internacionais que pregavam que a mão de obra livre era mais barata e rendia muito mais e pressões nacionais de abolicionistas com força política. Sem trabalho, sem se alimentar, sem nenhuma dignidade, eles foram forçados a se marginalizarem, sofrendo com os imperativos do abismo social da época.
É ai que entra em cena Gilberto Freyre com todo seu amor pelo escravo, pela negra, pela mulata, resgatando tudo de melhor que já produziram e com uma lição de sociologia perene: É impossível pensarmos a história do Brasil sem conhecermos que são essas pessoas, esse povo, pilares da nossa sociedade. Tudo bem que apenas reconhecimento não basta e nesse aspecto concordo fielmente com Nancy Fraser. Há de se fazer mais por eles, focar numa política redistributiva, mas para isso é preciso ter em mente que as estruturas sociais são outras, totalmente diferentes daquelas que conhecemos do período escravocrata. Deve-se inserir assim, o negro na sociedade capitalista para que se possa buscar medidas afirmativas eficazes. Os negros não são os mesmo depois de Gilberto Freyre.
Queremos dizer com isso que não mais apenas a cor é um elemento determinante na vida social. A condição social, econômica, política e cultural, juntas assumem corpo na classe social, principal elemento que distingue pessoas. Porém, ser negro influencia muito nas formas de se relacionar na sociedade. Há omito de que negro de classe alta não sofre preconceito. Mentira! Aposto firmemente que as pessoas (no geral) estranhariam um negro dirigindo uma BMW, ou qualquer carro importado que seja. Provavelmente seria motivo de desconfiança, julgado a partir de bases preconceituosas cristalizadas em nossa vida social. O mito da ascensão social é quebrado quando apontamos que há uma distancia real entre brancos da classe A e negros da mesma classe. Uma pergunta que devemos deixar para que possa incitar a discussão é: porque a maioria das pessoas pobres é negra? Acreditar em meritocracia seria reforçar ainda mais a tese racial já vencida academicamente.
Sendo assim, o aspecto “cor”, que em muito é tratado por acadêmicos geneticistas deve ganhar maior destaque na trama social, pois é nela que faz “Neguinho da Beija Flor” ser chamado de “Neguinho” e não de “Europeuzinho da Beija Flor” (uma vez que um estudo apontou que 70% do tipo genético do ilustre sambista é de origem Europeia).
Gilberto Freyre nos lançou uma missão a qual não devemos abandonar, mas lutar com unhas e dentes: não apaguem da história aqueles que a fizeram, seja em qual período for. Assim a literatura fez por muitos anos. Falta a ciência. Os negros não são os mesmo depois de Gilberto Freyre. Não conseguimos pensar o povo brasileiro sem essa cor.
quarta-feira, 1 de junho de 2011
CONCURSO PARA PROFESSOR ADJUNTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS - UFJF/ 2011
EDITAL nº 18/2011 – PRORH
CONCURSOS PÚBLICOS nºs 16 A 26 de 2011
CLIQUE NAS IMAGENS ABAIXO


Imagens tiradas do edital via http://www.ufjf.br/concurso/concursos-em-andamento/editais/edital-18-novo/
CONCURSOS PÚBLICOS nºs 16 A 26 de 2011
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domingo, 29 de maio de 2011
Pistoleiros do Pará fazem 3.ª vítima em 5 dias

"A polícia do Pará confirmou, ontem à tarde, o terceiro assassinato em cinco dias na região de Nova Ipixuna, no sudeste do Pará. O agricultor Erenilton Pereira dos Santos, de 25 anos, foi encontrado baleado, no final da manhã, numa área a sete quilômetros do assentamento Praialta/Piranheira. Ali perto, na terça-feira, foi morto - também a tiros - o casal de ambientalistas José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo." FONTE: Estadao.com.br / http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110529/not_imp725374,0.php

http://www.blogger.com/img/blank.gif
Mais um caso lamentável na história desse país; assim como Chico Mendes (http://pt.wikipedia.org/wiki/Chico_mendes)http://www.blogger.com/img/blank.gif
e Dorothy Stang (http://pt.wikipedia.org/wiki/Dorothy_Stang), foi assassinado um dos poucos GUARDIÕES da nossa EXUBERANTE FLORESTA, nosso IRMÃO José Cláudio Ribeiro da Silva. Seu sangue escorreu pela terra que ele guarda para nossas futuras gerações, contrapondo toda diabólica ideologia do capitalismo destrutivo. Vale ressaltar que seu sangue, sem soma de dúvidas, foi derramado por LATIFUNDIÁRIOS, DESTRUIDORES DO NOSSO MAIOR PATRIMÔNIO, que só visam o lucro particular imediato, arruinando a fonte de subsistência de muitos extrativistas que compreendem a necessidade de mantermos a salva nossa MÃE.
Ainda nessa semana presenciamos a lamentável aprovação do novo código Florestal, que anistiará todos aqueles que corrompem nosso país derrubando ilegalmente árvores, sem se preocupar com as consequências dessa barbárie. O país, o mundo e nós precisamos dessa VIDA VERDE para sobreviver, respirar do melhor ar, etc, etc. ISSO É PROVADO PELA DONA DA RACIONALIDADE, DA VERDADE: A CIÊNCIA. SE NÃO NOS ATENTAMOS A ESSA VERDADE, LOGICAMENTE NOS ENQUADRAMOS COMO SERES IRRACIONAIS.
Sem querer que o texto fique longo e chato de ler, encerrarei por aqui, expressando todo meu DESGOSTO com os fatos e DESESPERO com o andar da carruagem blindada por uma elite que não é capaz de olhar para além do seu umbigo.
Não tenham vergonha de distribuir essa mensagem em todos meios possíveis, mas tenham vergonha apenas de não lutarem pela nossa ETERNA MÃE. Se o Estado não dá conta, http://www.blogger.com/img/blank.giflutamos nós aqui de "baixo".
Agradeço a atenção e ficarei feliz se repassarem por seus contatos.
Conheça José Cláudio Ribeiro em: http://www.youtube.com/watch?v=78ViguhyTwQ&http://www.blogger.com/img/blank.giffeature=player_embedded
http://www.youtube.com/watch?v=i60vlrrRpfA&feature=player_embedded
Enquanto estamos parados olhando o mal se espalhar, as desigualdades se naturalizarem, pessoas como José Cláudio Ribeiro viveram grande parte de sua vida com uma bala na cabeça, e mesmo assim nunca desistiram da luta. SEJAMOS FORTES!
domingo, 8 de maio de 2011
E.U.A comemora a morte de seu "produto".

Morreu nessa segunda- feira, dia 02 de maio, aos seus 49 anos o mártir da rede revolucionária Al-Qaeda.
Sob um total ar de mistérios e dúvidas o mundo inteiro ficou sabendo pelas bocas do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que o maior inimigo deles foi morto por uma operação em Abbotabad, Paquistão.
Após noticia, era possível ver nas ruas norte-americanas uma carnavalização do fato ocorrido. “Milhares de jovens”, como descreveram as mídias, foram as ruas comemorar a morte do que pra eles era seu maior medo, o terror em pessoa. Uma pergunta a ser feita é por que só se viam jovens nas ruas e não, também, adultos e idosos? Talvez essa maneira de “carnavalizar” os fatos seja característica dos tempos modernos, da cultura teen, mas afirmando isso entraríamos em contradições sociológicas muito amplas, não cabíveis nesse debate. O que pretendo tratar aqui é sobre o passado da relação E.U.A, U.R.S.S e Afeganistão, dum período da Guerra Fria.
Foi na Guerra Fria, quando o comunismo ainda estava em voga, com as pretensões da antiga U.R.S.S de invadir o Afeganistão que os E.U.A entra em cena naquele território. Como assim entra em cena? Nada mais nada menos do que financiando economicamente e militarmente as tropas do Afeganistão contra a invasão. É nesse período que se “criam” os mais temidos “terroristas” mundiais, com poderosos e temíveis treinamentos oferecidos pela inteligência norte- americana (C.I.A). Dentro dessa lógica podemos pensar que a própria inteligência norte- americana financia a morte de 3.000 civis do “11 de setembro”.
Interessante se pensar no papel que a hegemonia cultural e econômica norte- americana detém sobre os fatos: enquanto que dois aviões jogados contra duas torres gêmeas matam 3.000 pessoas nos E.U.A, no Oriente Médio, centenas de caças e o próprio exército norte- americano já mataram dezenas e mais dezenas de milhares de civis inocentes nessa “guerra ao terror”. Se nossos juízos de valores fossem construídos por números apenas, defenderíamos a “Jihad”, mas como eles (Arábes Muçulmanos) são tidos como primitivos e não civilizados por muitos de nós Ocidentais, suas mortes não significam muita coisa, ou pelo contrário, significam JUSTIÇA. Estupidez!
O que me intriga mais é saber se os E.U.A não tem problemas internos como desigualdades sociais, acesso a saúde, educação, preconceitos raciais, violência, etc., que não superam a necessidades daquele país em gastar TRILHÕES com uma política imperialista, com uma guerra que eles mesmos financiaram.
sábado, 23 de abril de 2011
Novo código florestal: “direito-lei” versus “direito costume (realidade social)”

Novo código florestal: “direito-lei” versus “direito costume (realidade social)”
Oliveira Vianna em seu clássico “Instituições Políticas Brasileiras” trava uma discussão, opondo-se aos intelectuais juristas do século XIX, sobre as Constituições Nacionais e sua disparidade com relação à realidade social do “povo-massa”. Assim se configurou com a Constituição de 1824 e 91.
Para Vianna (2000), esses legisladores, fabricantes da armadura jurídica e política do nosso país, se apresentam como “marginal man”, apropriando-se da teoria de Park (1937). Segundo autor, os “marginal man” viviam num intervalo entre a sociedade Brasileira e a Francesa ou Norte-Americana, onde, em geral, se graduavam. Estes intelectuais de Vianna estavam ligados ao Brasil e sua rede cultural por meio da formação do “subconsciente coletivo” (VIANNA, 2000), ou seja, devido a realidade social que aqui estavam dispostos e ligados a França ou aos E.U.A devido a sua formação intelectual.
O que pretendo tratar aqui é uma herança desse passado não tão distante que ainda nos assombra e que ganhou caras novas: agora esses intelectuais não precisam sair do país para se apresentarem como “marginal man”, uma vez que estão sendo produzidos e pensados dentro de uma colonização intelectual das nossas próprias Universidades. O novo código Florestal será nossa base para essa discussão.
O que o novo código Florestal tem haver com esse tema? Saiu no G1 (http://g1.globo.com/politica/noticia/2011/04/governo-quer-acabar-com-agricultura-familiar-diz-relator-do-codigo-florestal.html) que o novo código Florestal exigirá que os pequenos produtores reservem uma área de sua terra para reserva ambiental. A princípio vemos uma iniciativa legítima do ponto de vista ambiental, mas não digo o mesmo pelo aspecto social, histórico e econômico.
Essa ação governamental poderá iniciar uma extinção da agricultura familiar em nosso país, tipo de agricultura que existe em nosso solo desde a formação do nosso povo. Em “O povo Brasileiro” Darcy Ribeiro expõe que a formação deste tipo de agricultura têm várias causas, entre elas: a crise do mercado escravista que levou os bandeirantes (grupos nômades) a se fixarem na terra e dela tirarem seu sustento. Outro é o exemplo do “Brasil Caipira” que em Minas Gerais mais se acentua. Esse “caipira” se configura no período da crise do ouro, quando se fixa num pedaço de terra criando um complexo social e regional (de “bairro”) que dará novo sentido a sua vida.
Essas formações do “Povo Brasileiro” persistem até hoje, mas claro que com muitas mudanças de cunho cultural e econômico, muito agravado com o período de industrialização do país, mas que também se preservou muito de suas identidades passadas. Identidades essas que não são levadas e conta por uma elite intelectual que governa nosso país, que desconhecem a realidade do nosso “povo-massa” e se julgam representantes legítimos.
Sendo assim, fica claro entender a dialética direito-lei e direito costume (realidade social) que é construída por um grupo de “marginal man” do nosso país, que busca em seu intelecto “colonizado” respostas e soluções para problemas deslocados da realidade.
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